EDITORIAL

 

             Quando se dá início a um projeto, é difícil prever os caminhos que tomará, se terá fôlego suficiente para se desenvolver, e em que medida o fará. É, por isso, com grande orgulho que publicamos o nº 10 da estrema, resultado de um percurso nem sempre fácil – como é próprio de um projeto editorial académico, levado para frente por estudantes –, mas que já completou, apesar de tudo, cinco anos de atividade, ao longo dos quais, publicámos 62 artigos de estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento, oriundos de universidades de todo o mundo, nas mais diversificadas áreas das Humanidades: Literatura, História, Filosofia, Cinema, Arte, Ciências Sociais…

             Neste número, deu-se a casualidade de os artigos aprovados serem todos de cariz literário e de dois deles se debruçarem sobre obras poéticas. Será a poesia, afinal, menos marginal do que habitualmente se pensa, nos estudos literários contemporâneos? Assim, o nº10 abre-se com um estudo de Rafaela Cardeal sobre um dos maiores poetas brasileiros do século XX, João Cabral de Melo Neto, de quem a autora estuda a obra Museu de tudo, aproveitando a imagem do museu como instrumento de leitura crítica da obra do autor, numa reflexão que passa pela aproximação entre linguagem pictórica e poética. Esta aproximação existe também no segundo artigo, da autoria de Aline Duque Erthal, dedicada à ligação de força e forma na poesia de Luís Miguel Nava, que se constitui como base de uma concepção moderna de poesia. Abandonando o território do poético – ao menos, stricto sensu –, entramos, com o artigo de José Pedro Pereira, numa discussão sobre a sexualidade, a partir de uma abordagem psicanalítica adotada para a análise do capítulo “Penélope” do Ulysses, de Joyce. A psicanálise está igualmente presente, em parte, na leitura que Darislânia Rocha faz do conto “A terra dos meninos pelados”, de Graciliano Ramos, em que trabalha com os conceitos de angústia e de utopia como resposta a esta. Regressando à literatura portuguesa, o artigo de Cátia Ferrer aborda, também ele, as relações entre literatura e artes visuais, mais especificamente, a fotografia, a partir do estudo da técnica do autorretrato em obras de Irene Lisboa e de Viviane Maier. Para terminar, o artigo de Natalia Telega-Soares aborda uma questão de grande relevância no âmbito dos Estudos sobre as Mulheres, a do racismo no movimento feminista, através de uma crítica ao conceito de irmandade. O número conta ainda com duas recensões, da autoria de Pedro Moura, de Dark Deleuze, de Andrew Culp, e de dois livros sobre o arquivo: Archive Everything. Mapping the Everyday, de Gabriella Giannachi, e Rogue Archives. Digital Cultural Memory and Media Fandom, de Abigail De Kosnik.

              A todos, boa leitura e boas férias!

  Patrícia Lourenço, Directora

Sonia Miceli, Directora Adjunta