EDITORIAL

 

       É com grande satisfação que apresentamos o número 9 da estrema. Nesta edição, a revista conta com seis contribuições, que abordam diferentes disciplinas e mediums, incluindo o cinema, a literatura e a história. Esta diversidade dá continuidade à dinâmica interdisciplinar da nossa revista, destinada a incentivar o diálogo entre diferentes áreas e orientações teóricas e críticas.

Abre este número o artigo de José Bértolo “O actor real: Perigos da representação em A Double Life, de George Cukor”. Na senda de teóricos do cinema como Tom Conley, Bértolo analisa os momentos iniciais de A Double Life, abordando a importância do discurso literário na linguagem fílmica. Esta aproximação permitir-lhe-á discutir questões centrais no contexto do cinema norte-americano, entre as quais a cultura do consumo e as expectativas sociais. De forma análoga, o autor liga o caso apresentado a outros filmes e referentes culturais. A contribuição de Mariana Castro continua a perscrutação na cultura do consumo, desta vez a partir da economia informal e do contrabando. Focando-se no contexto português, a autora examina o contrabando enquanto prática histórica, examinando modos de representação e conceptualização do Antigo Regime à época contemporânea.

            A contribuição de Carlos Domper Lasús discute os conceitos de nacionalismo e a integração no contexto europeu. Após examinar o processo de constituição do estado-nação, Domper analisa diversos momentos históricos do século XX, enfatizando a constituição da União Europeia. Conceitos e elementos chave para a compreensão da nossa contemporaneidade ­— a saber, soberania, cidadania, territorialidade e diferença — são discutidos e aplicados de forma crítica pelo autor. Seguindo outro trilho, María Míguez López elege o filme NightJohn (1996) da produtora Disney, para uma análise sobre a representação da escravatura e das relações raciais no contexto de uma economia assente na plantação. A partir de uma perspectiva actual, Míguez assinala a originalidade temática na linguagem “suavizada” da multinacional norte-americana; posteriormente, a autora salienta as possibilidades críticas e subversivas do filme.

         Os dois últimos artigos da presente edição abordam questões de ficção e representação literárias. Maria Viana aproxima-se ao romance O Coruja, de Aluísio Azevedo, através da discussão do grotesco na prática literária. A autora apresenta uma complexa e intrincada genealogia do grotesco, apoiando o seu argumento em referências a autores como Victor Hugo, Mikhail Bakhtin ou Wolfgang Kayser, para, posteriormente, examinar como é que estes pressupostos funcionam no romance em análise. Finalmente, Alison Turner analisa vários textos de escritores africanos que focam a relocalização de refugiados nos Estados Unidos. A política de representação da actual crise, originada pela guerra da Síria, é examinada a partir de uma série de aproximações a diferentes contextos,  realizadas na última década, em que a relocalização, a espera e a criação de campos de refugiados constituíram elementos frequentes na paisagem. O nosso número conta ainda com uma recensão do livro Emotion, Learning, and the Brain. Exploring the Educational Implications of Affective Neuroscience, de Mary Ellen Immordino-Yang, realizada por Ana de Almeida Moura.

  Patrícia Lourenço, Directora

Sonia Miceli, Directora Adjunta